Notícia: Entre a escola e o emprego: o desafio de preparar as juventudes para o mundo do trabalho

Entre a escola e o emprego: o desafio de preparar as juventudes para o mundo do trabalho

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No Dia do Jovem Trabalhador, iniciativas da Fundação Roberto Marinho apostam em formação complementar para ampliar o acesso de adolescentes e jovens a oportunidades no Brasil

Close em estudantes sentados em sala de aula, olhando à frente com atenção. Em primeiro plano, uma jovem com cabelo cacheado observa concentrada, enquanto outros colegas aparecem ao fundo, também atentos. O ambiente sugere um momento de escuta, como uma explicação ou apresentação.
Aprendiz Legal, Desponta e co.liga são algumas das soluções da FRM. Foto: @zackfotografo

Entrar no mercado de trabalho ainda é um desafio para muitos jovens brasileiros e isso não se deve apenas à escassez de vagas. A dificuldade de conectar o que se aprende na escola com o que é exigido no ambiente profissional segue como um dos principais obstáculos para quem está começando. 

O Dia do Jovem Trabalhador, data celebrada em 24 de abril, ganha ainda mais relevância em um cenário de rápidas transformações tecnológicas e mudanças nas formas de trabalho. Preparar essa nova geração exige mais do que conteúdo técnico: passa também pelo desenvolvimento de habilidades digitais, socioemocionais e comportamentais. 

Hoje, uma parte significativa desse público conclui a educação básica sem se sentir pronta para dar os próximos passos na vida profissional. Esse desalinhamento impacta diretamente o acesso a oportunidades e evidencia a necessidade de iniciativas que atuem na transição entre escola e trabalho.  

O cenário é ainda mais desafiador para os jovens que não terminaram a educação básica. No Brasil, cerca de 7,9 milhões de jovens entre 15 e 29 anos estão fora da escola sem concluir seus estudos. Eles enfrentam dificuldades ainda maiores para entrar e permanecer no mercado de trabalho, além de apresentarem taxas mais altas de informalidade se comparado à população adulta. 

A Fundação Roberto Marinho trabalha, a partir desse contexto, desenvolvendo e implementando programas voltados à inclusão produtiva, com foco na formação e no fortalecimento de competências essenciais para adolescentes e jovens. 

Um deles é o Aprendiz Legal, que combina formação teórica com experiência prática em empresas. A proposta é permitir que jovens iniciem sua trajetória profissional de forma estruturada, desenvolvendo tanto conhecimentos técnicos quanto habilidades necessárias para o dia a dia no trabalho. 

Antes dessa etapa, outra iniciativa da FRM, o Desponta, atua na preparação de adolescentes para esse ingresso. A iniciativa de pré-aprendizagem, gratuita e digital, trabalha o desenvolvimento pessoal, a recomposição de aprendizagens e o letramento digital, contribuindo para que os jovens cheguem mais preparados ao mercado. 

Já a co.liga amplia esse caminho ao focar na economia criativa. A escola digital oferece cursos online em áreas como audiovisual, design, música e tecnologia, abrindo novas possibilidades de atuação e incentivando a construção de trajetórias profissionais mais conectadas às transformações do mundo contemporâneo. 

A supervisora de inclusão produtiva da Fundação Roberto Marinho, Alzira Silva, comenta sobre os desafios e oportunidades para a inclusão digna das juventudes no mundo do trabalho. Também aborda a contribuição de soluções como o Aprendiz Legal, o Desponta e a co.liga nesse cenário.  

É comum ouvirmos sobre a dificuldade de conectar escola e mercado de trabalho. Na sua visão, onde estão hoje os principais desencontros? E o que pode ser feito para aproximar esses dois universos de forma mais efetiva? 

Alzira: Os principais desencontros ainda estão relacionados à forma como a escola organiza seus processos formativos, muitas vezes pouco conectados às dinâmicas atuais do mundo do trabalho, que hoje exige mais autonomia, repertório digital, colaboração e capacidade de adaptação. Também precisa ser destacada a dificuldade que, muitas vezes, os educadores têm em engajar os jovens com assuntos relacionados a isso.  

Às vezes, os jovens têm contato com um conjunto limitado de carreiras, sem conhecer, por exemplo, as possibilidades existentes na economia criativa, nas áreas tecnológicas, nos serviços ligados ao cuidado ou mesmo em trajetórias técnicas de nível médio. As oportunidades têm crescido em áreas como tecnologia da informação, audiovisual, produção cultural, logística, energias renováveis e serviços digitais, mas nem sempre essas possibilidades chegam de forma clara para os estudantes: o que se faz, onde se trabalha, quais são as possibilidades de crescimento e como começar? 

O desenvolvimento de estratégias que fortaleçam o pertencimento é uma questão fundamental. Pertencimento ao processo educativo, aos temas trabalhados e às possibilidades de inserção no mundo do trabalho. Isso significa não apenas informar sobre oportunidades, mas criar experiências em que os jovens possam experimentar, explorar e se reconhecer nessas possibilidades. 

Para aproximar escola e trabalho de forma mais efetiva, é fundamental investir em metodologias que promovam protagonismo, aprendizagem baseada em projetos, experimentação e resolução de problemas reais. Além disso, é essencial ampliar as conexões com o mundo produtivo e com iniciativas que apresentem múltiplas trajetórias possíveis, ajudando o jovem a construir sentido, identidade e projeto de vida. 

De que forma programas de pré-aprendizagem, como o Desponta, contribuem para uma inserção mais qualificada e digna de adolescentes e jovens no mundo do trabalho? Que tipo de habilidades essas iniciativas ajudam a desenvolver? 

Alzira: Programas de pré-aprendizagem cumprem um papel fundamental ao preparar os jovens antes mesmo do ingresso formal no mundo do trabalho. Eles funcionam como uma ponte estruturada entre a escola e o universo profissional, ampliando o repertório dos participantes e fortalecendo sua autonomia. 

No Desponta, por exemplo, temos uma intenção explícita de não apenas apresentar conteúdos, mas criar experiências de aprendizagem que ajudem os jovens a compreender e explorar o mundo do trabalho. Nessa solução, estruturamos um conjunto de 16 roteiros de atividades, pensados para educadores em diferentes contextos. 

Esse material favorece o entendimento sobre as diferentes oportunidades de estudo e trabalho, ao mesmo tempo em que engaja os jovens no exercício de projetar seus futuros. Saber que existe um panorama amplo de possibilidades, incluindo carreiras técnicas, criativas, digitais e empreendedoras, é fundamental para orientar escolhas mais conscientes e ampliar horizontes. O Desponta também trabalha habilidades essenciais, como comunicação, colaboração, pensamento crítico, resolução de problemas, responsabilidade e autogestão.

Ao articular repertório, experimentação e reflexão, programas como o Desponta ampliam as condições de uma inserção produtiva mais qualificada e digna, especialmente para jovens que historicamente tiveram menos acesso a esse tipo de informação.

Como formação e trabalho se equilibram dentro da aprendizagem profissional? Na prática, o que o jovem pode esperar ao ingressar no mercado como aprendiz? 

Alzira: A vivência na aprendizagem profissional se dá, essencialmente, pela integração entre teoria e prática. As atividades teóricas são conduzidas pelas entidades formadoras, enquanto as atividades práticas são vivenciadas nas empresas que contratam os aprendizes. A maior parte da carga horária é prática, o que reforça o papel das empresas como espaços de formação para esses jovens. Por isso, quando as empresas realmente se comprometem com esse processo de desenvolvimento dos jovens, a vivência nos programas de aprendizagem se torna muito mais enriquecedora. 

Na prática, o jovem pode esperar uma jornada de desenvolvimento em que aprende fazendo, compreende processos de trabalho, desenvolve responsabilidades e constrói repertório profissional e socioemocional. Quando bem conduzida, essa experiência não só qualifica para o trabalho, mas também fortalece outras dimensões na vida desses jovens, como autonomia, confiança e capacidade de projetar seu futuro. 

Como habilidades socioemocionais, digitais e criativas aparecem nas soluções da Fundação Roberto Marinho para inclusão produtiva? E como iniciativas como o Desponta, o Aprendiz Legal e a co.liga se complementam nesse processo? 

Alzira: As soluções da Fundação Roberto Marinho partem de uma compreensão ampliada de formação, em que habilidades socioemocionais, digitais e criativas são estruturantes para a inclusão produtiva. As competências socioemocionais são trabalhadas no fortalecimento da autonomia, da colaboração, da empatia e da capacidade de tomada de decisão. As competências digitais aparecem tanto no uso crítico das tecnologias quanto na produção de conteúdos e na inserção em ambientes digitais. Já as competências criativas são mobilizadas como ferramentas para expressão, inovação e resolução de problemas, ampliando as possibilidades de atuação dos jovens. 

No Desponta, trabalhamos com a apresentação de oportunidades, ampliando o conhecimento sobre diferentes caminhos de estudo e trabalho. Não se trata de uma preparação específica para o ingresso imediato no mundo do trabalho, mas de oferecer ferramentas e referências para eles que possam compreender melhor as possibilidades que existem e se engajar na busca de suas escolhas. 

O Aprendiz Legal é uma ferramenta para a implementação da política pública de aprendizagem profissional, contribuindo com conteúdo e metodologia que apoiam as redes implementadoras na parte de formação. Os materiais também funcionam como instrumentos que qualificam a experiência da aprendizagem, ao apoiar educadores e instituições na mediação entre formação e prática. 

Já a co.liga traz esse repertório em economia criativa e cultura digital. Além do jovem acessar diretamente a plataforma, a escola também trabalha em parceria com diferentes instituições para implementar os cursos e ampliar as estratégias de formação utilizadas por essas redes. 

De forma complementar, essas iniciativas oferecem conteúdo de qualidade e estratégias voltadas à ampliação do repertório das juventudes e de instituições locais, contribuindo para que mais jovens tenham acesso a oportunidades de formação e de inserção no mundo do trabalho. 

Olhando para o cenário atual, o que ainda precisa avançar para que mais jovens tenham acesso a oportunidades qualificadas de formação e trabalho no Brasil? 

Alzira: Ainda é necessário avançar na ampliação e democratização do acesso a oportunidades de qualidade, especialmente para jovens em contextos de maior vulnerabilidade. Isso envolve tanto políticas públicas mais integradas quanto o engajamento do setor produtivo e da sociedade civil. 

Também é fundamental fortalecer a qualidade das experiências formativas, garantindo que elas sejam significativas, contextualizadas e alinhadas às transformações do mundo do trabalho, incluindo as transições digitais e verdes. Outro ponto central é o reconhecimento das juventudes em sua diversidade. É preciso desenvolver estratégias que considerem diferentes trajetórias, territórios e identidades, promovendo inclusão com equidade. 

Por fim, avançar na construção de ecossistemas de inclusão produtiva, que articulem educação, trabalho, cultura, tecnologia e desenvolvimento local, é um caminho essencial para garantir que os jovens não apenas acessem oportunidades, mas consigam construir trajetórias sustentáveis e com sentido ao longo da vida. 

Iniciativas como Desponta, Aprendiz Legal e co.liga mostram que é possível construir caminhos mais estruturados, que integram formação, experimentação e desenvolvimento de competências essenciais para o presente e o futuro do mundo corporativo.  Mais do que preparar para o primeiro emprego, o desafio está em criar condições equitativas para trajetórias sustentáveis, diversas e com sentido em um cenário em constante transformação.